Mais do que isolar o Irã, os EUA de Trump se isolam do palco multilateral, permanecendo ao lado de Israel e Arábia Saudita. Nutrem a expectativa de que mais sanções asfixiarão o regime dos aiatolás e reduzirão sua influência no Oriente Médio.

O presidente dos EUA, Donald Trump, mostra sua assinatura oficializando a retirada do país do acordo nuclear com o Irã, retomando as sanções contra o país. Trata-se de uma das mais contundentes decisões de política externa do americano em seus 15 meses de governo (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

O presidente dos EUA, Donald Trump, mostra sua assinatura oficializando a retirada do país do acordo nuclear com o Irã, retomando as sanções contra o país. Trata-se de uma das mais contundentes decisões de política externa do americano em seus 15 meses de governo (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)

Em 16 meses no comando dos EUA, o presidente Donald Trump consolida sua marca como destruidor de acordos, abandonando agora o pacto nuclear obtido em 2015 com o Irã e revertendo, mais uma vez, as ações de seu antecessor, Barack Obama. Novamente, ele prometeu um acordo melhor, sem apresentar qualquer alternativa ao que já estava em vigor.

Foi assim quando retirou os EUA do Acordo do Clima e do Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP), deixou o Nafta, com os vizinhos México e Canadá, praticamente no limbo e voltou atrás na reaproximação com Cuba.

No campo doméstico, desmantelou o DACA, que protegia 800 mil filhos de imigrantes da deportação, e só não conseguiu derrubar o Obamacare porque alguns senadores republicanos o traíram. Em todas as situações, a promessa de um Plano B não se concretizou.

Dificilmente os EUA conseguirão um melhor acordo com o Irã do que o firmado também com Reino Unido, França, China, Rússia e Alemanha. A retirada americana do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês) é uma clara vitória dos falcões linha-dura em ambos os países.

Mais do que isolar o Irã, os EUA de Trump se isolam do palco multilateral, permanecendo ao lado de Israel e Arábia Saudita. Nutrem a expectativa de que mais sanções asfixiarão o regime dos aiatolás e reduzirão sua influência no Oriente Médio.

França, Reino Unido e Alemanha tentam salvar o acordo e manter o Irã a bordo, mesmo sob pressão dos EUA. Para isso, contam com a influência de Rússia e China para frear a linha radical, capitaneada pela Guarda Revolucionária, e assegurar que o regime não volte a enriquecer urânio.

Mas empoderar a Rússia tem seus riscos, sobretudo para Trump. Como observou o professor Abbas Milani, diretor do Centro de Estudos Iranianos da Universidade de Stanford, em artigo publicado no Boletim de Cientistas Atômicos, a Rússia vem incrementando presença e poder no Irã.

Seus aviões têm permissão para usar bases militares iranianas. Recentemente, observa Milani, o regime liderado pelo aiatolá Khamenei anunciou a intenção de substituir o inglês pelo russo, como idioma estrangeiro nas escolas. “Um giro iraniano na direção da Rússia e distante do Ocidente terá consequências históricas”, analisa.

Sandra Cohen é jornalista especializada em política internacional. Foi editora de Mundo do jornal ‘O Globo’ durante 14 anos, de 2004 a 2018. Twitter: @sandracoh

Fonte: G1

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